Tudo começou numa conversa, quando eu, simplesmente, citei:
- (…)aliás, preciso comprar mais um sapato, esse aqui está um lixo.
- Bem, amanhã eu vou comprar um sapato também, podemos ir junto, o que acha? – diz minha amiga.
“Eu sei muito bem que você quer que eu vá só para carregar as coisas!” – Concluo mentalmente.
- Ok. Que horas? – Eu pergunto.
- Passo no seu apartamento amanhã, às 15h.
Agora é sábado, 14:50h, hora do banho – Afinal, conhecendo bem minha amiga, ela nunca vai chegar aqui as 15h.
15:27h, o interfone toca:
- Sr. Tiago?
- Fala Léo.
- É a srta. Vanessa.
- Já desço.
Como sempre, minha amiga Vanessa está atrasada…
Entro no carro dela, ela atribui o atrasado ao trânsito.
“Ahan, fico imaginando o congestionamento, num sábado à tarde, para chegar aqui… Uma vez combinamos de tomar café juntos, bem cedo. Marcamos às 5 horas da manhã, ela se atrasou 45 minutos, e disse que a culpa foi do trânsito também”
- Eu preciso comprar um scarpin para a festa do dia 10 – diz ela – eu vi numa revista um modelo que combinará, perfeitamente, com meu vestido.
- E já sabe onde encontrá-lo?
- Alguma loja deve ter.
Quando ela disse isso, tive um mau pressentimento:
“Vou andar o shopping todo atrás dessa porra!”
Todavia, minha amiga Vanessa, exímia conhecedora da cultura russa, técnica em contabilidade, jogadora de RPG, assinante da Exame, é uma garota sensata, ela sabe o que quer. Ela não vai rodar todo o shopping em busca de um “sapato ideal”, isso é um costume alienado, de mulheres consumistas… Eu acreditava nisso…
Chegamos no Shopping Morumbi, estacionamos o carro, nos encaminhamos para a primeira loja, quando:
- Preciso voltar no carro.
- O que foi Vanessa, esqueceu algo?
- Eu trouxe uma amostra do tecido do vestido para ver se a cor do sapato combina.
“Amostra do tecido do vestido? HÃ?”
- Me da as chaves que eu pego, te encontro na loja. Onde está?
- No porta-luvas.
Já dentro do carro, não encontro a amostra, decido ligar pra ela:
- Oi, encontrou? – pergunta ela.
- Qual é a cor?
- É cinza ardósia escuro
“PUTA QUE PARIU! Que cor é essa?”
- Cinza ardósia? – Eu pergunto, na esperança de ter entendido errado.
- Sim, tem um pedacinho do tecido no porta-luvas.
- Certo…
Encontrei o retalho, e vou de encontro à Vanessa. Quando chego à loja um vendedor vem me atender:
- Boa tarde, posso ajudar?
- Os sapatos sociais estão aonde?
O cara me mostra a vitrine, eu encontro o que desejo:
- Eu quero aquele de bico fino, preto – Eu digo apontando para o sapato.
- Certo, qual o número?
- 40
- Deseja ver mais algum modelo?
- Não, só esse mesmo.
- Tem certeza? Eu poderia trazer alguns outros modelos parecidos – insiste o vendedor
- Não, só esse, não precisa trazer outro.
- Certo, sente-se em uma de nossas cadeiras que já volto com os sapatos.
Procuro minha amiga, encontro-a. Ela está sendo já atendida por uma vendedora.
- Está aqui o retalho – entregando-o para ela
- Obrigada… O que acha dessa bota?
- Bota? Não era um Scarpin?
- Sim, é. Mas vi essa bota em promoção, o que acha?
“Promoção? Sei…”
- Você não tem uma igual? – Eu pergunto.
- Não é bem igual, e ela já esta velha.
- Ok – encerrando o assunto.
Vejo o vendedor que me atendeu vindo em minha direção, ele carrega consigo oito caixas de sapatos. Eu pedi UM sapato, e esta trazendo OITO caixas.
Ele começa com o papo de vendedor:
- Eu trouxe esse aqui, acho que o senhor vai gostar
- Não, obrigado. E o que eu mostrei, onde está?
- Então… O número 40 está em falta, trouxe o 39.
Experimentei o 39, não coube:
- Também trouxe o 41 – diz o vendedor.
Também não serviu… Eu já sabia disso, pois uso sapatos dessa marca faz tempo.
- Tem um quase igual ao que você pediu, mas o bico é chato. – diz o cara
“AHAN, da mesma forma que uma pirâmide é QUASE igual um prédio amarelo.”
- Não, obrigado, não vou levar nada.
O vendedor insiste mais uma vez, eu recuso, e ele depois vai embora.
- Encontrou o queria? – Pergunto à Vanessa
- Não, mas vou levar essa bota aqui. – ela responde.
Ela vai ao caixa, paga, e vamos embora do recinto.
Entramos na próxima loja, um cara nos atende:
- Ola, posso ajudar?
- Procuro um scarpin, onde estão?
- Scarpin feminimo, né? – indaga o vendedor
“NÃO, SCARPIN MASCULINO MODELO TRANSEX!”
- Sim, feminino – responde, gentilmente, minha amiga ao vendedor.
Enquanto ela busca o sapato dos sonhos, vou procurar o meu. Vejo o mesmo modelo da última loja, mostro-o ao vendedor, e voltamos à Vanessa:
- Encontrou? – pergunto a ela.
- Não, mas gostaria de ver esse aqui, e esse aqui, e aquele ali… – apontando para vários modelos.
Quando ela apontou para vários modelos, percebi que ficaria ali mais do que gostaria.
O vendedor volta com MUITAS caixas. Contudo, devido aos vários pedidos de minha amiga, ele só trouxe duas caixas para mim. Experimento o modelo que pedi, serviu perfeitamente, e eu disse que levaria ele mesmo. Enquanto isso, Vanessa coloca os vários modelos solicitados por ela.
Ela experimenta todos os modelos, ao menos, duas vezes, e no final não leva nada.
- “Novidade ¬¬”- Eu pago meu sapato e saímos da loja.
Visitamos mais quatro lojas, em TODAS elas, minha amiga entrou, escolheu um ou dois sapatos, experimento-os, disse que não gostou, avistou uma blusa/calça/tanto faz, vestiu, gostou e levou.
Duas horas e meia, depois de adentrar o shopping, lá estávamos com VÁRIAS sacolas e nenhum Scarpin, nos encaminhando ao estacionamento.
- Já sei aonde encontrar meu sapato! – diz ela.
- Aonde?
- Na loja (censurado) no Pátio Higienópolis.
“Ir a outro shopping? Nããããããããooooooo”
No caminho para o outro shopping, minha amiga diz o quão maravilhoso e bonito era o sapato que ela queria, e como ele faria um par perfeito com o vestido que havia comprado. Enquanto isso, um leve desespero toma conta de mim. “Em quantas lojas ainda terei que entrar? Será que estou sendo punido? Por que vocês mulheres são assim?”
Chegamos ao shopping, vamos até a loja:
- É esse aqui! É esse aqui! – diz Vanessa, com os olhos brilhando de alegria – sabia que encontraria aqui!
- É mesmo?
- Sim, quando eu mostrei a revista para minha mãe, ela disse que tinha visto algo mais ou menos desse jeito aqui.
“PUTA QUE PARIU! ENTÃO POR QUE A GENTE NÃO VEIO AQUI ANTES, CARALHO!?”
- Deveríamos ter vindo aqui antes, não? – Eu digo, me controlando.
- Havia esquecido, me lembrei quando chegamos no shopping Morumbi.
- …
A meu ver, o sapato era igual a uns três outros que ela experimentou antes.
- Vanessa, se o sapato que você procurava era PRETO, por que o retalho do vestido? – Pergunto a ela, logo após sairmos da loja.
- Bem, eu queria ver se a cor ficaria bem com o preto. E se eu encontrasse um de outra cor, que eu gostasse, precisava ver se combinava.
- Aaaaaaaaaaaaaahhhhhh bom.
O resto do dia, que já era noite, foi bem agradável: comemos, bebemos e fomos embora.
No caminho de volta, poucos antes de chegarmos ao meu apartamento, outra SURPRESA:
- Semana que vem, mesmo horário? – Ela pergunta.
- Hã? – Eu digo, sem saber do que se trata.
- Eu tenho que ir buscar meu vestido na loja, você não vem comigo?
- HÃ?
- Ele ficou lá para fazer uns ajustes, vamos buscá-lo e depois comemos algo.
Fico sem reação, pensando na opção de reviver todo aquele TORMENTO na próxima semana.
Chegamos ao meu apartamento, nos despedimos, eu desço do carro, e poucos antes de ir embora, ela ainda confirma:
- Semana que vem, ao mesmo horário, não esqueça!
Nesse momento só uma coisa passa pela minha cabeça:
#FFFFFFFFFFFFFUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU
Texto meu, publicado anteriormente aqui ó…
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