Não importa se há precedente e o quão semelhante ele pode ser com o caso – se os atores, o calendário ou quem sabe até o clima for diferente, um conselho é sempre uma projeção.
Tenho uma amiga de longa data. Gosto de dizer que ela parece uma manhã ensolarada de sábado, o que pra mim significa que ela é uma dessas pessoas leves e sorridentes – essas que gostamos de encontrar e que basta um sorriso para que nossas botas fiquem mais leves. No início dessa semana* ela me ligou com um alô um tanto quanto sorumbático e durante toda a conversa sua voz estava algumas oitavas abaixo, um monocórdio sem fim, diferente do habitual. O tempo tende a fazer isso com os relacionamentos, basta uma mudança simples na voz ou uma pausa mais prolongada entre uma palavra e outra para percebermos que há alguma coisa errada com o interlocutor.
- Alô.
Foi quando me dei conta que fora a primeira vez que ela me disse alô. Temos por hábito dispensar essa cordialidade. Fiquei confuso, cheguei a pensar ser outra pessoa. Estava aflita, nervosa, preocupada e todos os adjetivos que cabem a alguém que precisa desesperadamente de um ombro. Então marcamos de nos encontrar no dia seguinte e naquela noite fui dormir pensando em uma história que li no quinto livro da série O Mochileiro das Galáxias – Praticamente Inofensiva, do genial Douglas Adams. Transcrevo abaixo. É longa, mas compensa.

(…) Haviam lhe dito que, ao procurar por um bom oráculo, o ideal era encontrar o oráculo que os outros oráculos frequentavam, mas ele estava fechado. Havia um aviso na entrada dizendo “Não sei mais nada. Tente aí do lado – mas isso é só uma sugestão, não um conselho formal de oráculo”.
“Aí do lado” era uma caverna a alguns metros, e Arthur caminhou até lá. Fumaça e vapor subiam, respectivamente, de uma pequena fogueira e de uma panela de lata desgastada pendurada acima da fogueira. Saía um cheiro insuportável da panela. Ou, pelo menos, Arthur supôs que o cheiro viesse da panela. As bexigas dilatadas de algumas criaturas locais semelhantes a bodes estavam penduradas em um varal, secando ao sol, e o cheiro podia estar vindo dali. Havia também, preocupantemente próxima, uma pilha dos corpos descartados das criaturas locais semelhantes a bodes, e o cheiro também podia estar vindo de lá.
Mas o cheiro também podia tranquilamente estar vindo da senhora que estava ocupada espantando as moscas da pilha de corpos. Era uma tarefa inglória, uma vez que cada mosca era do tamanho de uma tampinha de garrafa, com asas, e ela só tinha uma raquete de tênis de mesa. Parecia também ser meio cega. De vez em quando, por acaso, uma das pancadas enlouquecidas acertava uma das moscas com um safanão altamente satisfatório e a mosca zunia pelo ar, indo se estraçalhar na parede de rocha próxima à entrada da caverna.
Ela dava a impressão, pelo seu comportamento, de que sua vida girava em torno de movimentos como aquele.
Arthur assistiu àquela performance exótica por um bom tempo, mantendo uma distância educada, e depois finalmente tentou tossir discretamente para chamar a atenção da mulher. A tosse discreta em tom cortês infelizmente obrigou Arthur a inalar mais ar local do que havia feito até então e, por causa disso, ele teve um acesso de expectoração estridente e caiu de encontro à rocha, engasgado e com o rosto coberto de lágrimas. Lutou para respirar, mas, cada vez que inalava, a situação ficava pior. Vomitou, engasgou novamente, rolou sobre o próprio vômito, continuou rolando mais alguns metros e, finalmente conseguiu ficar de quatro e se arrastou, ofegante, em direção a um ar um pouquinho mais fresco.
- Com licença – disse ele. Recuperara um pouco de ar. – Sinto muito, muitíssimo mesmo. Estou me sentindo completamente idiota e… – Apontou constrangido para a pequena poça de seu próprio vômito, espalhada na entrada da caverna. – O que posso dizer? – perguntou ele. – O que dizer numa situação como essa?
Aquilo, pelo menos, chamou a atenção da mulher. Ela virou-se parar ele, desconfiada, mas, por ser meio-cega, teve uma certa dificuldade de distingui-lo na paisagem embaçada e rochosa.
Ele acenou para ajudar.
- Olá! – disse ele.
Finalmente ela o localizou, resmungou entre os dentes e voltou a dar pancadas nas moscas.
Estava terrivelmente aparente, julgando pela oscilação das correntes de ar conforme ela se mexia, que a principal fonte do fedor era ela. As bexigas no varal, os corpos pestilentos e a sopa insalubre certamente contribuíam violentamente para a atmosfera geral, mas a principal presença olfativa era a mulher em si.
Acertou outra pancada em uma das moscas. Ela se despedaçou contra a rocha e esvaiu-se em um filete liquido de uma forma que a mulher obviamente via, se é que enxergava até lá, como bastante satisfatória.
Vacilante, Arthur ficou de pé e se limpou com um punhado de grama seca. Não sabia mais o que fazer para anunciar sua presença. Chegou a pensar em ir embora de fininho, mas não achou de bom tom deixar um montinho de vômito na frente da casa dela. Pensou no que podia fazer a respeito. Começou a colher mais punhados da grama seca aqui e ali. Mas estava com medo de se aproximar do vômito e, em vez de limpar, aumentar mais a poça.
Justo enquanto estava debatendo consigo mesmo sobre qual seria a melhor coisa a fazer percebeu que a mulher estava finalmente falando com ele.
- Desculpe, o que a senhora disse?
- Eu perguntei em que poderia ajudar – disse ela, com uma voz fina e áspera que ele mal conseguia ouvir.
- É… eu vim pedir o seu conselho – respondeu ele, sentindo-se um pouco ridículo.
Ela virou-se para observá-lo, miopemente, depois voltou-se, tentou acertar uma mosca e errou.
- Sobre o quê? – perguntou a mulher.
- Como?
- Eu perguntei sobre o quê – repetiu ela, estridente.
- Bem – disse Arthur. – Conselhos genéricos, para falar a verdade. (…)
- Conselhos – disse ela. – Conselhos, né?
- É, isso mesmo – respondeu Arthur. – É, isso é… (…)
- Conselho, né? – repetiu a mulher. – Genéricos, você diz. Sobre o quê? O que fazer da sua vida, coisas assim?
- Exatamente – respondeu Arthur. – Coisas assim. Para ser sincero, tenho tido alguns probleminhas. – Estava esgueirando-se de maneira discreta tentando desesperadamente aproveitar o vento. Ele se assustou quando ela se afastou bruscamente, dirigindo-se para a caverna.
- Você vai ter que me ajudar com a máquina de fotocópias, então – disse ela.
- Com o quê? – perguntou Arthur.
- A máquina de fotocópias – repetiu ela, paciente. – Você precisa me ajudar a arrastá-la para fora. Ela é movida a energia solar. Mas eu tenho que guardá-la dentro da caverna, senão os passarinhos cagam tudo.
- Entendi – disse Arthur.
- Eu respiraria fundo, se fosse você – resmungou a senhora pisando duro e adentrando a escuridão da caverna.
Arthur seguiu o conselho . Na verdade, inalou o máximo de ar que pôde. Quando sentiu que estava pronto, segurou a respiração e seguiu a mulher.
A máquina de fotocópias era uma tralha velha e pesada, apoiada em um carrinho bamboleante. Ficava imersa na penumbra da caverna. As rodinhas estavam obstinadamente emperradas em direções diferentes e o chão era irregular e pedregoso.
- Vai pegar um ar lá fora – desse a mulher. Arthur estava com o rosto vermelho, tentando ajudá-la a mover a máquina.
Ele balançou a cabeça, aliviado. Se ela não estava constrangida com aquilo, então ele estava decidido a não ficar também. Saiu da caverna e respirou fundo algumas vezes, voltando em seguida para continuar o trabalho pesado. Precisou repetir aquela estratégia algumas vezes até conseguir colocar a máquina para fora.
A luz do sol a atingiu em cheio. A mulher tornou a desaparecer caverna adentro e voltou carregando uns painéis de metal mosqueados, que ela conectou na máquina para captar a energia solar.
Ela olhou para o céu com os olhos semicerrados. O sol estava bem forte, mas o dia estava nublado.
- Vai demorar um pouquinho – avisou ela.
Arthur disse que esperava numa boa.
A senhora deu de ombros e marchou até a fogueira. O conteúdo da panelinha estava borbulhando. Ela remexeu com um pedaço de pau.
- Você não quer almoçar? – perguntou a mulher.
- Já almocei, obrigado – disse Arthur. – Não mesmo. Já almocei.
- Sei – disse ela. Continuou mexendo com o pedaço de pau. Alguns minutos depois, pescou um pedaço de alguma coisa, assoprou um pouco para esfriar e enfiou na boca.
Mastigou pensativa por alguns instantes.
Então, caminhou lentamente até a pilha das criaturas mortas semelhantes a bodes. Cuspiu o pedaço em cima da pilha. Voltou para a panela. Tentou removê-la do suporte parecido com um tripé onde estava encaixada.
- Quer ajuda? – ofereceu Arthur, levantando-se educadamente. Correu até ela.
Juntos, conseguiram remover a tigela do tripé e a levaram desajeitadamente pela pequena descida até a saída da caverna, em direção a uma fileira de árvores raquíticas e retorcidas que delimitavam a área de uma vala íngreme, mas rasa, de onde emergiu toda uma nova gama de fedores.
- Preparado? – perguntou a senhora.
- Sim… – respondeu Arthur, embora não soubesse para quê.
- Um – disse a velha.
- Dois – continuou.
- Três – acrescentou.
Arthur percebeu, em cima da hora, o que ela queria fazer. Juntos, lançaram o conteúdo da panela dentro da vala.
Após uma ou duas horas de silêncio não-comunicativo, a senhora decidiu que os painéis solares já haviam absorvido luz o suficiente para fazer funcionar a máquina de fotocópias e desapareceu caverna adentro para procurar alguma coisa. Finalmente, reapareceu com algumas resmas de papel e a inseriu na máquina.
Entregou as cópias para Arthur.
- Estes são, ah, estes são seus conselhos? – perguntou Arthur, folheando as páginas, indeciso.
- Não – respondeu ela. – Essa é a história da minha vida. Sabe, a qualidade de qualquer conselho que uma pessoa pode dar deve ser avaliada de acordo com a qualidade da vida que essa pessoa levou. Ao examinar esse documento, você vai notar que eu sublinhei todas as principais decisões que precisei tomar, para destacá-las. Estão em ordem alfabética e tem um índice remissivo. Entendeu? Então, sugiro apenas que você tome as decisões contrárias às que eu tomei, porque assim você talvez não termine sua vida… – ela fez uma pausa e encheu os pulmões para um bom grito – EM UMA CAVERNA VELHA E FEDORENTA COMO ESSA!
Recolheu sua raquete de tênis de mesa, arregaçou as mangas, marchou em direção à pilha de criaturas mortas semelhantes a bodes e começou a espantar as moscas com vitalidade e vigor.
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Gosto de ser pontual nos meus encontros. Ao meio-dia eu estava lá, tentando parecer despreocupado para quebrar o gelo. Ouvi por duas horas ininterruptas. Entre as pausas longas eu disse “compreendo”. Entre as curtas “lamento”. Nos raros momentos de otimismo, “isso aí!” e no fim, acrescentei para que ela tivesse certeza “estou sempre aqui.”.
*Escrito em 19 de junho de 2010.
Arquivado em: Cultura Pop, Nostalgia