Hoje eu começo uma sequência de posts sobre alguns álbuns musicais concetuais que eu, particularmente, gosto.
Primeiramente, álbum conceitual é aquele em que todas as músicas contribuem para o mesmo efeito final ou para uma história única, como o Tommy do The Who, que ao longo de suas faixas conta a história de um garoto cego, surdo e mudo.
Mas vamos começar com Tunes of War, da banda alemã Grave Digger.
Para quem não conhece, o Grave Digger apareceu pela primeira vez em uma compilação chamada Rock from Hell no começo dos anos 80 e, naquela época, tinham sua imagem muito associada ao satanismo. Ainda naquela década lançaram discos muito bons como o Heavy Metal Breakdown e alcançaram um relativo sucesso.
Alguns anos depois, em 1987, com o avanço da onda Glam que tomava conta das rádios, eles trocaram o nome da banda para Digger e lançaram um álbum comercial horroroso chamado Stronger than Ever que, obviamente, foi um fracasso e a banda resolveu encerrar as suas atividades.
Seis anos depois, o vocalista Chris Boltendahl reformulou toda a banda, retomou o nome Grave Digger e voltaram a fazer o que sabiam melhor: tocar o bom e velho Heavy Metal. Lançado em 1996, Tunes of War representa justamente o ápice, tanto comercial quanto técnico, desse recomeço na história do Grave Digger. Foi o primeiro trabalho conceitual da banda, contanto a história da Escócia e suas guerras pela separação do Império Britânico.
O álbum aborda, de forma cronológica, os momentos históricos mais importantes do país; como sua unificação no começo do século XI, as lutas pela independência lideradas por William Wallace e Robert the Bruce, as principais batalhas contra a Inglaterra e a trajetória dos principais reis e descendentes da família Stuart, a dinastia que governou o país por quase três séculos.
Vamos às faixas.
The Brave é um trecho adaptado de Scotland the Brave, que por sua vez é um hino (não-oficial) escocês. A gaita-de-fole na introdução já deixa clara a temática do disco.
“Malcolm King, scots follow you. Into battle we will go.”
Assim começa a faixa que faz referência à Batalha de Carham.
A música cita os pictos, escotos e anglos, que assim como os saxões e bretões, não citados na letra, foram os povos que, ao longo dos séculos, se estabeleceram em território escocês e fizeram parte do processo de formação da Escócia.
No começo do século XI, o território escocês era dividido em reinos, como o de Alba ao norte (habitado por pictos e escotos), Lothian no leste (anglos e saxões) e Strathclyde no sudeste (bretões). No ano de 1018 a Inglaterra resolveu invadir e se apropriar de Lothian, região que era habitada, em sua maioria, por ingleses.
Tropas foram enviadas para tomar Lothian, mas foram massacradas pelos escoceses numa batalha às margens do Rio Tweed, na cidade de Carham, nordeste da Inglaterra, evento que ficou conhecido como Batalha de Carham.
Os escoceses, na ocasião, foram liderados pelo Rei Malcolm II (Rei dos escotos), e a partir desta vitória a Escócia tornou-se um reino unificado, sob o comando do próprio Malcolm II.
A letra fala sobre as invasões dos vikings noruegueses às ilhas escocesas de Orkney, Shetland e Hebrides, por volta do século VIII, que só foram expulsos de lá somente a partir de 1249, quando o Rei Alexander III lançou uma série de ataques contra os nórdicos invasores.
Estes ataques foram tão severos que provocaram a ira de Hakon Hakonson, Rei da Noruega, que no verão de 1263 navegou até a Escócia com o intuito de invadi-la. Sua frota gigantesca aportou em Largs no dia 10 de agosto. Mas o Rei Alexander conseguiu negociar habilmente com o inimigo, atrasando seu encontro até outubro, quando uma súbita tempestade de outono destruiu a frota escandinava. Vários navios foram destroçados e outros ficaram encalhados na costa de Largs.
A “escuridão do sol” seria a tal tempestade que assolou a região. A batalha em si foi em pequena escala, ambos os reis não participaram.
Hakon fugiu para outras regiões escocesas, vindo a falecer em Kirkwall (nas Ilhas Orkney) em 16 de dezembro. Seu corpo foi enterrado na Catedral de St. Magnus e mais tarde, na primavera, transportado para a Noruega.
“In the dark of the sun the enemy’s defeated run. In the dark of the sun the battle has been won.”
O próprio título deixa claro sobre quem é a música.
William Wallace foi o grande líder e expoente máximo da luta pela independência da Escócia. Suscitou em seu povo os ideais de justiça e liberdade contra toda a tirania imposta pelo rei inglês Edward I. Lutou contra os ingleses contando com imenso apoio das camadas populares e até dos nobres escoceses (estes, porém, acabariam se subordinando aos interesses do rei inglês). Juntamente com Andrew Murray, assumiu o controle das forças rebeldes que haviam se espalhado pelo país.
Em março de 1298, Wallace foi feito cavaleiro, possivelmente por Robert the Bruce, e designado como Guardião da Escócia. Derrotaram os ingleses na ponte que liga ao Castelo de Stirling (onde Murray foi morto) mas sofreram uma grande derrota em Falkirk, em julho. Wallace renunciou como Guardião e acredita-se que tenha ido viver na França. Quando retornou em 1305, foi capturado pelos soldados de Edward perto de Glasgow. Traído por seu conterrâneo John Mentieth, foi levado imediatamente para Londres, onde foi executado em 23 de agosto.
A morte de Wallace incutiu um sentimento de revolta e ao mesmo tempo de estímulo e exemplo para todo o povo escocês, para que jamais desistissem de lutar pela liberdade. Sua história foi adaptada para o cinema no filme “Coração Valente”, estrelado por Mel Gibson.
Robert the Bruce (ou Robert Bruce VII), assim como William Wallace, é considerado um herói nacional.
Após a renúncia de Wallace como Guardião da Escócia, Bruce assumiu o posto, mas antes eliminou um velho inimigo do caminho, seu primo John Comyn, apunhalando-o no altar em Dumfries.
“Stab Red Conym down.”
Com a morte de Wallace em 1305, tornou-se definitivamente o grande líder da luta escocesa. Coroou-se rei da Escócia, no Palácio de Scone, em 1306. No ano seguinte, o rei inglês Edward I contra-atacou e Bruce foi deposto, sendo obrigado a fugir para as highlands, ao norte.
Em 1314 conquistou uma vitória histórica na Batalha de Bannockburn, próxima ao Castelo de Stirling. Mesmo inferiores numericamente, os escoceses impuseram uma derrota expressiva aos ingleses, expulsando-os de seu território.
“One ‘gainst three we stand. Fight for your land! The Battle of Bannockburn, a lesson they did learn.”
Em 1323, Bruce selou uma trégua de 13 anos com o rei Edward II. Porém, quando Edward III chegou ao poder em 1327, a guerra eclodiu, mas os escoceses venceram outra vez.
Finalmente, em 1328, através do tratado de Northampton, os ingleses reconheceram a independência da Escócia. Robert the Bruce tornou-se Robert I, rei da Escócia. Morreu um ano depois, acometido por lepra, sendo sucedido por seu filho David II.
Essa faixa é sobre o massacre que foi a Batalha em Flodden Field.
Tal confronto foi travado no norte da Inglaterra em setembro de 1513, entre o exército escocês liderado pelo Rei James IV e um exército inglês liderado por Thomas Howard. O intuito dos escoceses, posicionados previamente em Flodden, era invadir a Inglaterra com a ausência de seu rei, Henrique VIII.
O auge da batalha ocorreu quando os schiltrons escoceses (grupos de homens armados com lanças viradas para todas as direções, formando uma defesa como a de um porco-espinho) abriram mão da defensiva em território alto para o combate corpo-a-corpo com os ingleses, cujos soldados empunhavam uma arma devastadora (uma espécie de alabarda) que era muito mais poderosa para uma disputa do que as lanças escocesas, pouco aperfeiçoadas.
“September the 3rd of fifteen thirteen, we met the English at Flodden Hill. God knows we gave it all. A damned day, I saw many fall.”
No embate sangrento, os escoceses foram cercados e esfacelados. A reserva escocesa conduzida pelo Duque de Argyll (que pagaria por esta indolência com sua cabeça muitos anos depois) assistia tranquilamente enquanto o rei, seu exército e muitos de seus nobres eram dizimados. No total, mais de 10.000 homens foram mortos.
Uma “balada” para Mary Stuart, que era filha de James V, rei da Escócia.
Embora possuísse outros irmãos, Mary (1542-1587) herdou o trono com a morte do pai, em 1546. Por ser menor, foi enviada àFrança, onde juntamente com as filhas do rei, recebeu educação em Saint Germain. Seu casamento com Francisco II a fez rainha da França. Com a morte prematura do marido, retornou à Escócia onde encontrou um ambiente dos mais hostis.
Ela tentou restaurar o catolicismo, pois a Reforma Protestante estava então no auge. Foi considerada proscrita pela Câmara dos Comuns, em junho de 1567, e teve que se refugiar no Castelo de Loch Leven onde abdicou em favor de seu filho, que tomou o título de James VI.
Fugiu então para a Inglaterra, sofrendo a dureza do severo cativeiro imposto por sua prima, a rainha Elizabeth Tudor.
“The Scottish crown belongs to me. Yet I’m bound I cannot flee. With iron claws England holds tight. All is lost no chance to fight.”
Os soberanos James V da Escócia e Maria de Guise foram os pais de Mary Stuart. Desta forma, ela descendia dos reis ingleses por parte de seu pai, filho de Margaret Tudor, filha do rei inglês Henrique VII; ao passo que por via materna, descendia da casa ducal da Lorena. Assim, o trono inglês pertencia a Mary, por descendência, e esse era o motivo da rixa entre ela e Elizabeth.
“In England’s hands I fell 18 years a living hell.”
Mary Stuart viveu encarcerada por 18 anos. Seu filho, então com 21 anos e em plena posse da autoridade, nada fez para salvá-la. Foi executada em 8 de fevereiro de 1587, sob a acusação de conspirar contra Elizabeth.
The Truth é sobre os conflitos causados pela reforma protestante.
Foi John Knox (1505-1572), que havia estudado com João Calvino em Genebra, que levou o Parlamento da Escócia a abraçar a Reforma Protestante em1560, sendo estabelecido o Presbiterianismo.
Em 1561 Mary Stuart voltou à Escócia. Ela tentou restaurar o catolicismo, gerando diversos conflitos entre os próprios escoceses.
“I’ve seen brother fighting brother. I’ve seen friends kill each other.”
Quando Mary Stuart foi forçada a abdicar em 1567, seu filho James VI foi declarado rei com apenas um ano de idade.
Uma sucessão de regentes governou o país até que ele completasse 21 anos. James, ao tomar posse como rei, nada fez para tirar sua mãe da prisão (encarcerada há 18 anos) ou impedir sua execução, pois havia formado uma aliança política com sua prima Elizabeth I, rainha da Inglaterra e inimiga de sua mãe.
Elizabeth morreu não deixando herdeiros, assim, em 1603, James VI passou a ocupar o trono inglês, autoproclamando-se James I, rei da Inglaterra.
“My king won another crown – for Scotland’s pride, that is what we thought but we were not right. Now he rules in London – a faceless king. Sold his ancient kingdom to the enemy.”
Havia ainda nessa época uma enorme hostilidade entre escoceses e ingleses, e o fato de James ter se tornado rei da Inglaterra e se mudado para Londres, unindo as duas coroas, gerou grande descontentamento entre seu povo.
“You gain a crown, we pay the price. You think you rule, but we will rise.”
“By God’s Grace I’m the king. James the 7th. Obey or death I bring.”
James VII da Escócia (1633-1701), também conhecido como James II da Inglaterra, foi o último rei da dinastia Stuart.
Neto de James VI, herdou a coroa inglesa em 1685, tomando o título de James II, rei da Escócia, Inglaterra e Irlanda. Governou, no plano político e administrativo, de modo absolutista e autoritário; e no religioso, deixava clara a sua preferência pelo catolicismo, entregando aos católicos os principais cargos públicos e postos do exército, o que levou o Parlamento inglês a derrubá-lo através de um golpe em 1688, imposto pelo príncipe holandês Guilherme de Orange, que invadiu Londres com seu exército e sem resistência alguma destituiu o monarca, que teve de fugir para a França onde foi acolhido pelo rei Luís XIV.
Esse golpe de Estado ficou conhecido como Revolução Gloriosa.
O maior hino da banda fala sobre a sequência de eventos que ficaram conhecidos como Levantes Jacobitas.
Anos após a Revolução Gloriosa, que depôs James II da Inglaterra e o obrigou a fugir para a França, o príncipe James Francis Stuart (“o velho pretendente”) retornou à Escócia, onde um grupo de Jacobitas organizava um levante em seu favor.
“Jacobita” ou “jacobino” era o nome dado aos ingleses e aos clãs escoceses partidários da família dos Stuarts. Seu objetivo era depor o Rei George II (protestante) e restaurar a antiga dinastia Stuart (católicos).
“The Jacobites are gathering, I’ll be at their side.”
Entretanto, após uma batalha indecisa com as forças governamentais em 1715, os jacobitas se renderam em Preston, Inglaterra, e os Stuarts tiveram que retornar ao exílio na França. Em 1745, um novo levante foi organizado pelos jacobitas, desta vez liderado por Bonnie Prince Charles (filho de James Francis Stuart). Contando com uma força de 5.000 homens, ele chegou à Escócia em julho daquele ano e em setembro tomou a capital Edimburgo.
Derrotou os ingleses em Prestopans e após uma longa espera, invadiu a Inglaterra em 8 de novembro, avançando até a cidade de Derby, representando uma séria ameaça para Londres.
“The town of Edinburgh fell soon in our hands. Defeated the English at the Battle of Prestopans.”
A última faixa do álbum traz o desfecho de toda essa história.
Pouco a pouco os ingleses foram afastando os jacobitas de seu território, até chegarem a Culloden Muir, uma área elevada de terras cobertas por lamaçais e pântanos, situada no nordeste da Escócia.
Foi neste local que os jacobitas tombaram diante do poderoso exército inglês, numericamente superior e comandado por William Augustus, filho do rei George II.
“At Culloden in 1746 Scotland’s fate was sealed.”
Travada em 16 de abril de 1746, a Batalha de Culloden marcou a derrota definitiva das forças jacobitas. Com o revés, Bonnie Prince Charles teve que retornar à França e o movimento jacobita, desfragmentado, perdeu toda sua importância política. Mais tarde, muitos nobres e aproximadamente 1.000 pessoas foram executadas por aderirem ao movimento.
“We were a people free and brave. Heroes stood tall, but history is merciless. Now we are to doomed to fall.
The Battle of Culloden, the end of Scotland”
Uma melodia instrumental curta, finalizando o disco.
O disco ainda traz três clássicos da banda, como bonus:
14 – Heavy Metal Breakdown
15 – Witchhunter
16 – Headbanging Man
Por fim:
Tunes of War é um dos melhores discos que já ouvi. Energizante, maravilhoso, puro, uma verdadeira aula de heavy metal. Se existir alguma coisa que possa ser passível de crítica nesse álbum é a mixagem, que acabou deixando as guitarras altas demais, ofuscando um pouco os demais instrumentos e os vocais estridentes de Chris (um dos pontos mais característicos da banda).
Poucos são os discos que ouço atentamente da primeira à última faixa, esse é um deles.
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